Questões de Literatura Brasileira II

1-Discuta as quatro características estruturais da forma shandiana em MPBC- (5,0).
A forma shandiana resume-se em quatro itens: 1. A hipertrofia da subjetividade; 2. Digressividade e fragmentação; 3. Subjetivação do tempo e do espaço; e, 4. Interpenetração do riso e da melancolia.
Para Rouanet, a forma shandiana, criada por Sterne, define-se em Machado de Assis. Destaca que, das obras influenciadas (Sterne, Maistre, Almeida Garret e Diderot), uma vai mais adiante por levar à perfeição as características da subjetividade shandiana, será em Memórias Póstumas de Brás Cubas que vamos entender estas quatro características.
Vejamos o primeiro,
1. A hipertrofia da subjetividade. O termo hipertrofia comumente achado nos dicionários como desenvolvimento excessivo de um órgão ou parte dele, com aumento de peso e volume, devido a um aumento de suas células constituintes. A palavra hipertrofia migra para a terminologia literária, por conta da repercussão da obra Anatomia da Melancolia, de Robert Burton, publicada em 1621 e que muito influenciou Sterne. Para Rouanet, hipertrofia vai significar “soberania do capricho, volubilidade, constante rodízio de posições e pontos de vistas”. Verificamos o exagero de Brás Cubas em se dirigir aos seus leitores. Brás Cubas é um senhor absoluto irônico: “fino leitor”, “amado leitor, “pacato leitor”, respeita o entendimento do leitor, oferta ao leitor escolhas, atribui ao leitor “reflexões inteligentes” que o narrador não fez, coopera com o autor, é livre até para não ler, é o próprio narrador o centro de suas narrativas (que inexistem), é o eu excessivo. No cap. VIII Razão Contra Sandice, o narrador afirma: “Já o leitor (Grifo meu) compreendeu que era a Razão que voltava à casa”. Sua subjetividade extrapola chagando ao ponto de interagir com o leitor e responder pelo mesmo leitor.
2. Digressividade e fragmentação: já que nas formas shandianas a narrativa principal é paupérrima, a digressividade e a fragmentação são o ápice do capricho e volubilidade da nova forma proposta, então, o texto romanesco nunca será uma linha reta. Não há uma história a ser contada e dessa forma chegamos na “alma do livro”: a digressão, a fragmentação. A narrativa principal é uma ilha cercada de opiniões por todos os lados. A digressão supera o assunto principal. Historietas dentro da história principal. E ás vezes nem historietas há, como se vê nos capítulos: LV, O Velho Diálogo de Adão e Eva; CXXV, Epitáfio, CXXXVI, Inutilidade; CXXXIX, De Como Não Fui Ministro. O livro engrossa na medida em que a digressão aumenta, talvez para “criar uma ilusão de objetividade”. A máquina digressivo-progressiva é movida pelo leitor. Para estudo mais profundo dessas digressões e fragmentações, as supostas “reflexões” do Brás Cubas seria necessário dispor de mais tempo e laudas para estudar apenas esse tópico.
3. Subjetivação do tempo e do espaço. O narrador maneja arbitrariamente tempo e espaço. A própria História passa a ser periférica circundada pela história de seus personagens. E o que era historicamente importante passa a ser descentralizado. Em Brás Cubas a duração do tempo é subjetiva. O pêndulo não se move. Brás não relata em que tempo ele está inserido. Não há horas, dias, meses ou anos. Brás afirma em seu prólogo que ele evita contar o processo extraordinário que ele empregou na composição de suas memórias lá no outro mundo (MPBC, Prólogo). Que mundo/espaço é esse?
O espaço, por sua vez, será o acaso, a Necessidade, o Destino, a própria eternidade e até a Morte. Nenhum espaço é evocado nem percorrido por Brás no além. O espaço, novamente é a figura do narrador que não estaria assim tão desnorteada, o seu norte seria uma intrigante subjetivização de tempo e espaço que dá “alma” à digressão, para explicar a questão do tempo. Como afirma Rouanet: “O espaço urbano do Rio de Janeiro se atrofia se desrealiza, reduzindo-se ao Rocio, onde Brás conheceu Marcela, á Tijuca, onde ele se desfez da Flor da Moita, á rua dos Ourives, onde ele reencontrou Marcela, à Gamboa, onde ele se encontrava com Virgília, e ao Catumbi, onde ele morreu. ( Riso e Melancolia, pg 199)”. Fica claro, então, que espaço e tempo são subjetivos e revela o egocentrismo do personagem Machadino.
4. Riso e melancolia. Para Rouanet o riso não é remédio contra a melancolia. O riso teria uma grande vantagem: Brás Cubas produz leitores ideais. Rouanet acredita que Memórias Póstumas de Brás Cubas fora escrito para combater a melancolia. Brás Cubas, porém, descrê que o riso possa curar a melancolia. A metáfora do emplastro Brás Cubas seria de todo a prova do engodo, principalmente, o de ordem metafísico. Uma idéia “pendurou-se-me no trapézio que eu tinha no cérebro (MPBC Cap. II)”, lembra de Brás Cubas uma invenção “nada sublime”, a idéia que matou seu inventor. Rouanet, shandianamente interpreta até as passagens que Machado de Assis cita Saturno, o planeta da melancolia e das antíteses para corroborar sua tese na forma shandiana. A melancolia machadiana é fonte indireta de alegria, “a melancolia podia ser prazerosa”. A morte é dessacralizada desde o famoso prefácio “Ao verme que primeiro roeu as carnes frias do meu cadáver... (MPBC Dedicatória)” essa absurda declaração seria indício do que vai provocar todo o livro, riso e melancolia. A obra-prima de Machado seria uma espécie de ensaio metafísico, principalmente, no que tem o narrador do além-túmulo a nos contar que a melancolia não tem cura. Memórias Póstumas de Brás Cubas é o livro que entre o riso e a melancolia vai encontrar na ironia o equilíbrio, e mais ainda: já que a melancolia não pode ser vencida, então, ela será “fonte indireta da alegria”, “a melancolia pode ser prazerosa”. Rouanet chega a afirmar que é “o caso pouco banal de um influenciado que influencia a compreensão de quem o influenciou”.



2-“ Comente a “Política do Palimpsesto” da estrutura de Machado de Assis, especificamente, em” O Alienista”. (2,0).
O texto de Luis Costa Lima classifica a obra de Machado de Assis como um palimpsesto, ou seja, um “ texto primeiro” que oculta as suas características por um “ texto segundo”, escrito sobre ele. Seguindo essa linha de pensamento Costa Lima afirma que o texto “segundo”, o aparente, é constituído por Machado de maneira elegante e culta, polida enquanto que é no “ texto primeiro” que o autor deixa o verdadeiro valor de sua obra, na crítica velada a todas as verdades absolutas, como no caso de “O Alienista”, em que o crítico baseia seu trabalho sobre a ótica da verdade da ciência e da política, e que quase ninguém entendia a não ser um Augusto Meyer, como afirma Luis Costa Lima.
É preciso lembrar que na época em que Machado escreveu “O Alienista” (1882), a ciência estava no auge, desenvolvendo seus métodos de experimentação e observação. Foi a época de grandes pensadores como Augusto Comte, Charles Darwin, e Hippolyte Adolphe Taine.
Toda essa carga de pensamentos e métodos científicos influenciou a literatura Machadina. E é assim que nasce o movimento chamado Realismo, tendo como romance demarcatório Memórias Póstumas de Brás Cubas, e outros romances em que Machado cria personagens baseados na observação da realidade.
Em “O Alienista”, Machado de Assis faz uma crítica a todo esse pensamento científico e metodológico que predominava, caracterizado, principalmente pela confiança que se tinha na disposição da ciência em explicar os problemas do homem e da natureza. Machado não era alheio às questões sociológicos do país. A questão é que para entender seu envolvimento nestas questões o leitor deveria ser perspicaz, inteligente e se contextualizar com suas obras, principalmente nos contos.
Com relação a “O Alienista”, Machado cria uma obra que se constitui uma paródia à própria realidade. Percebemos que é na paródia, na sátira que a realidade de Itaguaí é retratada. Parodiando O Simão Bacamarte com o Augusto Comte percebemos o ridículo daquelas situações que normalmente nos passaria despercebidos. O Simão Bacamarte afirma que: “se propõe a estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhes os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. ( O Alienista, II cap, pg 12). Em ‘O Alienista”, Machado nos chama justamente a atenção a algumas dessas situações criadas pela ciência, a forma com que o indivíduo era classificado como louco. O psiquiatra Bacamarte internava pessoas por motivos mais banais, como é o caso de sua esposa D. Evarista que certa noite ficou indecisa quanto a usar o colar de granada ou de safira, (O Alienista, cap. X, pg. 39).
Verificamos que na obra, Machado de Assis brinca com a realidade, usando o que se chama carnavalização, pondo nomes sugestivos nos personagens: Simão Bacamarte, Evarista, o barbeiro Porfírio, o padre Lopes, o boticário Crispim Soares e outros, se utilizando de referencias bibliográficas como: o Alcorão, a Bíblia, os textos de Sócrates e outros, satirizando e expondo o ridículo dos métodos científicos.
Machado cria uma típica figura, arquétipo, de cientista, sintetizando nele toda a metodologia e racionalismo da época. O personagem Simão Bacamarte chega a escolher a esposa não por amor, mas devido às condições físicas ideais dela, que unidas às condições intelectuais dele teoricamente lhe concederia filhos “sãos e inteligentes. (1º capítulo O Alienista)”. Percebemos aqui uma sátira as teorias de Darwin, quanto a evolução das espécies. O filho planejado e que não veio, seria a síntese do que os dois tinham de melhor, um ser evoluído.
É no tratamento da loucura, contudo, que Machado faz sua maior crítica a ciência. Vejam nos estudos das fases de internação os conceitos adotados de sanidade e loucura. O conceito de loucura evolui de um desequilíbrio acentuado a um perfeito equilíbrio. Contudo o autor consegue ligar um extremo ao outro usando de uma forte argumentação lógica, baseado nos estudos e observações do alienista. Ou seja, toda aquela “loucura” das internações era apoiada em conceitos científico. Assim, o autor põe em questão um pensamento corrente na sociedade: Que toda verdade para ser considerada como tal, devia estar apoiada e comprovada pela ciência. Apesar de todos os fundamentos das argumentações lógicas, as diversas verdades que surgiram sobre a loucura se mostram insólidas. A verdade só se mostrou verdade enquanto não surgiu outra que a sobrepujasse. Ao final o único louco é o alienista, ou melhor, a própria ciência. A ciência aqui é vista como a própria loucura.
Machado também critica o poder, a influencia que a ciência tinha sobre os representantes do povo (vereadores) e o reinado. Observe o poder de Simão Bacamarte nos quatro primeiros parágrafos do capítulo X, após a sublimação dos rebeldes pelas forças do reinado. Tudo quanto Simão Bacamarte pediu se lhe deu. Porém todo esse apoio não advinha do espírito científico dos governantes. Devemos nos lembrar que a indústria estava em evolução e que a ciência era, e é, a base fundamental dessa evolução.
Um fato interessante na obra é do alienista usar a própria sociedade como cobaia para comprovar suas teorias. O que vem a ser um alerta tanto a sociedade da época, quanto a atual. Outra crítica que o Machado faz da ciência que se propõe estudar as questões humanas, negando o próprio homem. Ou seja, aquilo que ele tem de mais humano: os sentimentos, a fé, suas diferenças sociais, religiosas, políticas e étnicas. Afinal nenhum ser humano é igual. Assim é que o alienista recolhe a Casa Verde toda a Itaguaí. Pois a fé, as diferenças e os sentimentos são inadimisíveis, inexplicáveis e misteriosos para a ciência.
Por tanto, Costa Lima assegura que para esta leitura do texto “primeiro” é necessário uma leitura atenta, mais que um simples olhar; é necessário uma leitura comprometida, quase um pacto de troca de confidências entre os leitores e o enigmático autor. Quem se prende ao “texto segundo” não entende a genialidade de Machado. Costa Lima propõe que os textos de Machado de Assis para que sejam entendidos e interpretados devam ser lidos nas entrelinhas, ou seja metaforicamente na primeira camada do palimpsesto.


3-Problematize a Poética de Augusto dos Anjos, considerando o Poema “ Psicologia de um Vencido”. (2,0).
A obra de Augusto dos Anjos é única na Literatura Brasileira. Seus poemas apresentam uma linguagem cientificista-naturalista em que termos técnicos por vezes extravagantes constroem imagens que remetem a morte, o conflito da consciência, a degradação humana e a desintegração do ser. No entanto seus versos, que exprimem o pessimismo, e mesmo asco diante da vida são objeto de grande popularidade. Como diz Alfredo Bosi: “ Essa popularidade deve-se ao caráter original, paradoxal, até mesmo chocante, da sua linguagem tecida de vocabulários esdrúxulos e animada de uma virulência pessimista sem igual em nossas letras”. Augusto dos Anjos foi influenciado por Antero de Quental, Baudelaire, Cruz e Souza, Edgar Allan Poe, Haeckel e ainda outros. Esta influencia pode ser vista nas poesias: Versos Íntimos, O Morcego, A Obsessão do Sangue, Vozes de um Túmulo e outras em que o poeta canta o lado sombrio, as trevas e o destino inevitável da humanidade, a morte. Suas poesias nos lembra a todo instante que quer seja pobre, rico, branco ou negro o fim será sempre o mesmo, o túmulo. Como se constata na poesia “Psicologia de um Vencido”:
Psicologia de um Vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Êste ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

As palavras usadas no primeiro verso, carbono e o amoníaco são elementos químicos de fácil decomposição, que fazem parte de todos os compostos orgânicos. O soneto principia descrevendo as origens da vida: “Eu, filho do carbono e do amoníaco” e termina descrevendo o destino final do ser humano; retrata o ciclo da vida e da morte, permeado de dor, de sofrimento e da presença constante e ameaçadora da morte inevitável. O eu-lírico recorre a antítese: Monstro de escuridão e rutilância. Há um contraste entre as trevas e o brilhante, o cintilante como é definida a palavra rutilância no dicionário. Como pode um monstro ser escuro e brilhante?
No terceiro e quarto verso do soneto, o eu-lirico diz que nasce sofrendo e com a inevitável má influencia do zodíaco: “Sofro, desde a epigênesis da infância,/influência má dos signos do zodíaco”. Quer dizer, neste mundo, não há para o ser humano a opção de escolha, o indivíduo já nasce influenciado pelo que já foi determinado. O sistema, a sociedade, as ideologias, toda e qualquer forma de pensamento influencia o ser humano, ninguém é uma tabula rasa. Qual o ser humano que não tem um signo? Não há como fugir do que já foi convencionado, pré-estabelecido.
Ainda na segunda estrofe, o eu-lirico diz estar profundamente hipocondríaco, o ambiente lhes causa repugnância, e há uma reticência deixando o leitor ciente que há mais para falar. Que ambiente é esse, que lhe causa repugnância? Seria o ambiente onde se tem a influencia do zodíaco, como foi comentado acima? “Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia/Que se escapa da boca de um cardíaco” O eu-lirico sente angustia, sofre da mesma forma que um doente do coração.
Na terceira estrofe, o eu-lirico usa o elemento verme, que aparece no poema como sinônimo de morte, e esta imagem nos leva a refletir sobre a inutilidade da vida humana, cujo único fim é servir de alimento a “este operário das ruínas”.
O título do poema, “Psicologia de um vencido”, sintetiza a vivência de asco e horror do eu-lírico diante de um mundo doente, angustiante. O vocabulário científico presente no poema – carbono, amoníaco, epigênesis, rutilância – nos lembra o evolucionismo naturalista, e nos expõem a problemática existencial do ser humano, que se aproxima do cientificismo, na medida em que revela uma profunda angústia diante da fatalidade humana. Esse texto traduz todo o pessimismo do início de nossos amargos séculos industriais e capitalistas. Embora escrito na forma clássica, em forma de um soneto, seu conteúdo é moderno e vai de encontro às estéticas parnasianas e simbolistas não cabendo em nenhum desses estilos. Augusto do Anjos já aponta para uma terceira coisa, que seria o Modernismo. Seu tema é cosmológico, universal. Muito diferente de uma descrição de um vaso grego ou de um fato histórico, como eram alguns dos temas dos parnasianos.
Augusto dos Anjos é um poeta perfeito que soube cantar os temas mais difíceis da humanidade e aprenderíamos muito intertextualizando, dialogando com os textos de Horace Walpole, e Edgar Allan Poe. E em “Psicologia de um Vencido” verificamos o nivelamento do ser humano pela morte, a finitude e a certeza de que tudo um dia se acaba e como diz a última estrofe do poema só nos restará os cabelos: “E há-de deixar-me apenas os cabelos,/Na frialdade inorgânica da terra!”
Portanto, é um poeta que deve ser lembrado e analisado em todos os tempos e academias, atribuindo-lhe seu valor na Literatura Brasileira. E de acordo com seu conteúdo, quem sabe até ser classificado no estilo gótico de nossa literatura.
(Este trabalho me rendeu 9,5)

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